Monsieur Biraud é o sommelier do Les Ambassadeurs, restaurante do famoso Hôtel Crillon em Paris, há 14 anos. Com uma carreira brilhante que inclui os prêmios de Melhor Sommelier e Melhor Ouvrier Sommelier da França, ele começou na cozinha. Foi após um ano de menção em sommellerie, no coração de Bordeaux, que ele se decidiu pelos vinhos. De lá pra cá vem sendo guiado por sua paixão. O que ele vê de tão especial no vinho? Ele o vê como “a única máquina para voltar no tempo gustativamente, que pode atravessar o tempo e continuar sendo consumível”. Para David Biraud, “não há nenhum outro alimento que seja como o vinho. Outros alimentos, depois de alguns dias ou semanas, estarão perdidos, vencidos ou mofados. O vinho, não. É por isso que eu acho que o vinho e o homem fazem exatamente o mesmo caminho”. Ele vai ainda mais longe: “Repare, são nove meses de gravidez para uma mulher ter um neném. Para o vinho são praticamente nove meses. Começa-se a poda em fevereiro-março, o colhemos em setembro e até ele ir para o barril para envelhecer ou até ser engarrafado são aproximadamente nove meses também. O homem e o vinho estão sempre juntos.”
Em novembro do ano passado, depois de uma dura seleção, ele foi escolhido para representar seu país no disputado concurso de Melhor Sommelier do Mundo que só acontece a cada três anos. Teve cinco meses para estudar tudo sobre vinhos, destilados, licores, coquetéis entre outras bebidas. Para sua sorte, o Les Ambassadeurs estava fechado e ele pode se dedicar com afinco aos estudos. Eram oito horas diárias entre livros e degustações. Considerando a prática seu ponto forte e a essência da sua profissão como sommelier, David Biraud focou na teoria: “a teoria não é o que nos faz ganhar, mas ela pode nos fazer perder”. Assim foram os meses que antecederam o mundial, saindo de casa apenas para levar a filha à escola ou para comprar algum livro sobre vinhos.
A sua metodologia é simples: “Eu não tenho truques. O importante nessas horas é ser você mesmo. Quando somos nós mesmos, a apresentação é melhor e ainda mais marcante. É isso que ajuda alguém a ganhar”. Ele dispensa treinadores, prática comum entre sommeliers, pois “quem, além de mim, pode saber melhor o que devo fazer em cena e como devo reagir?”. Foi assim, simples e direto, que David Biraud enfrentou gente peso-pesado e passou por duras provas, se classificando para a final juntamente com o inglês Gerard Basset e o suíço Paolo Basso. Ao chegar à final, D. Biraud havia alcançado seu objetivo. Ficar em primeiro lugar seria extraordinário, mas para quem tinha apenas cinco meses de preparo, estar entre os três finalistas já era uma grande vitória.
David Biraud ficou com a medalha de bronze, tendo Gerard Basset sido eleito o melhor sommelier do mundo. O inglês, que já havia participado seis vezes do campeonato e chegado a quatro finais, declarou que se preparou durante um ano e meio, estudando seis horas por dia. Se as experiências anteriores e o tempo de estudos deram muita vantagem sobre os demais concorrentes? David Biraud diz que “a experiência do momento, de estar lá é bem importante. Se isso o deixou mais tranquilo que eu na hora? Talvez não. Eu não sei, é preciso perguntar a ele. Por outro lado, eu acredito que a experiência o permitiu ser mais regular do que eu. E a gente ganha um concurso quando a gente é regular em todas as provas. Eu fui muito bem em algumas, mas mal em outras.”. Além dos meses de estudo e dos anos de prática como sommelier, D. Biraud acredita que a sorte tenha sua parte na equação final de um resultado. Tendo se dedicado a estudar vinhos, outras bebidas ficaram em segundo plano. E foi na final que a sorte jogou contra o francês, a quem foi exigido o preparo de dois Negronis. Mas o sommelier não se lembrava da receita do drink que leva gin, vermouth e campari.
Muito satisfeito com o resultado, ele diz que se pudesse não mudaria nada, mas salienta que o serviço aos clientes toma a maior parte do seu tempo e que, dessa forma, a teoria acaba ficando um pouco atrás. Ele não se deixa abater e já está se preparando para o concurso de Melhor Sommelier da Europa, que acontecerá em novembro deste ano. Quando indagado se concursos são necessários para se tornar um bom sommelier, ele afirma: “eu acho que nós não somos obrigados a ganhar concursos para sermos ótimos sommeliers. Já eu, gosto muito de concursos porque eles me dão objetivos.”. Assim, Monsieur Biraud segue com sua rotina pesada, atendendo os clientes do restaurante e estudando de quatro a seis horas diárias durante os intervalos entre almoços e jantares. É como ele diz, “sommellerie não é mágica”.








